Celebração global do Dia Mundial da Limpeza de 2026 em Shaoxing, na China

Celebração global do Dia Mundial da Limpeza de 2026 em Shaoxing, na China

Let’s Do It World participou do evento com programação que enalteceu o diálogo entre governos e população para uma consciência ambiental mais ampla.

Celebração do Dia Mundial da Limpeza 2026 em Shaoxing, China.

Em 20 de setembro de 2026, a celebração global do Dia Mundial da Limpeza foi organizada pelas Nações Unidas em Shaoxing, na província de Zhejiang, na China, sendo a primeira vez que o país sediou o evento. Durante três dias, mais de 800 representantes governamentais, cidades, organizações internacionais, negócios e pesquisadores se reuniram para discutir o tema “De pratos limpos a cidades limpas”, a convite do Ministério da Habitação e do Desenvolvimento Urbano-Rural da China, do Governo Popular da Província de Zhejiang e da ONU-Habitat. 

Heidi Solba, presidente e head da rede global do Let’s Do It World, organização responsável pelo Dia Mundial da Limpeza, ao lado do membro da Diretoria, Pål Mårtensson, e da líder da organização na China, Caicai Wang. Durante o evento, os representantes da entidade puderam expressar algumas de suas ideias em relação ao Dia Mundial da Limpeza. A exposição de fotos da campanha também ocupou um grande salão, enquanto vídeos do Dia Mundial da Limpeza gravados em diversos países foram apresentados. 

Mas, para a presidente do LDIW, o mais importante da cerimônia não foi o que aconteceu no palco, e sim a pergunta que levou a tudo isso: como nós fazemos uma mudança significativa acontecer juntos, e por que isso parece tão mais difícil hoje em dia? 

Representantes do Let’s Do It World no evento.

O Dia Mundial da Limpeza não é a celebração de uma data. É algo que une pessoas que têm, cada uma, um pedaço da solução: governos criam as regras, as cidades que fazem a gestão dos resíduos, empresas são quem desenham os produtos, agências das Nações Unidas são quem conecta países, e os cidadãos são quem decide, todos os dias, o que comprar, usar e jogar fora. Cada um pode alcançar grandes resultados, mas nenhum consegue transformar o sistema sozinho. 

E a parte mais difícil dessa mudança não é técnica. Nós sabemos como construir sistemas de coleta, como reciclar e como eliminar embalagens de uso único. O nosso desafio é mudar o comportamento de milhões de pessoas e chegar a um acordo sobre o que fazer. Uma lei pode punir e banir, mas não consegue fazer com que as pessoas se importem. Uma política que não tem o apoio da população é resistida, ignorada ou revertida na próxima eleição. O limite real do que os governos conseguem resolver está na disposição das pessoas em seguir o mesmo caminho. Isso é uma questão de confiança. 

O Pesquisa de Confiança de 2024 da OCDE, realizada em 30 países, revelou que apenas 39% das pessoas confiam de forma alta ou moderadamente alta em seus governos nacionais. Uma descoberta chama a atenção: as pessoas que sentem que não têm voz no que o governo faz confiam nele 47 pontos percentuais a menos do que aquelas que se sentem ouvidas. A confiança não é criada por mensagens. Ela é criada pela participação, por fazer parte de algo e ver que a sua ação importa. Em um mundo que está se tornando mais artificial, onde muito do que vemos é gerado em vez de vivido, essa experiência física e compartilhada importa mais do que nunca.  

A Estônia aprendeu isso cedo. Em 2008, 50.000 estonianos limparam todo o seu país em um único dia. Um ano depois, milhares de pessoas se reuniram em grupos de discussão (think tanks) por todo o país, as palestras “Minu Eesti” (Minha Estônia), para debater como tornar a vida em seu país melhor. A limpeza mostrou às pessoas o que elas podiam FAZER juntas, e os grupos de discussão transformaram essa energia em ideias, motivação e uma lealdade duradoura à própria ideia. O Dia Mundial da Limpeza repete esse padrão ao redor do mundo: as pessoas vêm pela limpeza e ficam porque descobrem que podem liderar a mudança em sua própria comunidade, e que outros se juntarão a elas. 

Isso também é o que torna as sociedades resilientes. Em um mundo polarizado e cheio de conflitos, costumamos pensar em resiliência como barragens, reservas e planos de emergência. No entanto, o cientista político Daniel Aldrich, ao estudar desastres no Japão, na Índia e nos Estados Unidos, descobriu que a profundidade dos laços sociais previa a recuperação de uma comunidade melhor do que a riqueza, a ajuda governamental ou até mesmo a quantidade de danos. Após o tsunami de 2011 no Japão, as cidades onde as pessoas conheciam seus vizinhos tiveram taxas de sobrevivência mais altas. Aldrich distingue laços de união entre pessoas semelhantes, laços de ponte entre pessoas diferentes e laços de ligação entre os cidadãos e aqueles no poder. Os laços de ligação são os que mais importam para a recuperação, e são os primeiros a serem destruídos pela polarização. 

 O Dia Mundial da Limpeza constrói os três em um único dia. Vizinhos trabalham lado a lado; estranhos com visões, fés e políticas diferentes recolhem o mesmo lixo na mesma rua; voluntários ficam ao lado de prefeitos, ministros e líderes de empresas, não como peticionários, mas como parceiros. Nossa rede tem visto isso nos lugares mais difíceis, desde a guerra na Ucrânia até as recentes enchentes no Nepal. Uma limpeza nunca é apenas uma limpeza — é um ensaio de como uma sociedade se mantém unida quando realmente importa.  

Este ano, lançamos o #StriveforFive (Esforço pelos Cinco), a meta de colocar pelo menos 5% da população mundial em ação. Estudos de resistência civil apontam que cerca de 3,5% de uma população é a parcela capaz de mudar o que toda uma sociedade considera normal. Nossos 5% vêm do que vimos em nosso próprio movimento: quando uma em cada vinte pessoas participa, quase todo mundo conhece alguém que participou. A ação deixa o círculo de ativistas e se torna algo que “pessoas como nós” fazem. Jogar lixo no chão passa a ser vergonhoso, as pessoas começam a exigir melhores serviços de gestão de resíduos e os políticos percebem. A participação se transforma em expectativa, e a expectativa em política pública. 

Nada disso acontece de forma isolada. O Instituto Limpa Brasil iniciou o Dia Mundial da Limpeza no país, e sua rede de equipes nacionais organiza a maioria das ações do Dia Mundial da Limpeza em todo o mundo. A ONU-Habitat facilita a celebração oficial, e os governos a acolhem e apoiam cada vez mais. Esses não são papéis concorrentes, mas partes de uma única mensagem. Uma campanha governamental sem cidadãos continua sendo apenas um cartaz; um movimento de cidadãos sem instituições continua sendo apenas um único dia. Quando eles se encontram, um dia se torna um hábito, um hábito se torna uma norma e uma norma se torna política pública. 

Em um mundo que se volta para dentro, a confiança precisa de intermediários, e o Dia Mundial da Limpeza é um deles. Por isso, convido a uma verdadeira cooperação global. Os governos podem reconhecer as equipes nacionais do Dia Mundial da Limpeza da Let’s Do It World como parceiras e incluir o dia nos planos nacionais e municipais. As cidades podem abrir seus sistemas e dados de gestão de resíduos para a ação dos cidadãos. As empresas podem trazer suas equipes e suas cadeias de suprimentos. A família ONU pode conectar tudo isso. E todos nós podemos compartilhar dados e histórias abertamente, para que cada país aprenda com o outro. 

O que cresce entre as pessoas quando elas agem juntas é algo que nenhum relatório pode medir totalmente: CONFIANÇA.  

Confiança entre vizinhos, entre voluntários e prefeitos, entre a sociedade civil, empresas e governo. É o fio de ouro que corre pelo Dia Mundial da Limpeza, oculto e invisível aos olhos, e a coisa mais preciosa que o nosso movimento cria. Como o Pequeno Príncipe de Saint-Exupéry nos lembra, as coisas que mais importam não podem ser vistas com os olhos. A união é uma delas, e é algo que podemos aprender. 

De acordo com dados preliminares, 192 países e territórios já foram registrados para o Dia Mundial da Limpeza 2026.  

 O nosso agradecimento a cada líder e voluntário que fez o dia 20 de setembro acontecer em sua própria comunidade, a cada governo, cidade, empresa, à ONU-Habitat, à cidade de Shaoxing por sediar, ao Ministério das Relações Exteriores da Estônia, à Cidade de Riga e ao Fundo de Proteção Ambiental da Letônia pelo apoio, e a todas as organizações que estão lendo isto: vamos parar de trabalhar isolados e construir o próximo Dia Mundial da Limpeza juntos. 

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